Club do
Recife

Palestra : "Pernambuco Holandês" - com o companheiro Carlos Teixeira Jr.

Postado em: 21 de Setembro de 2023 por Rotary Club do Recife

Palestra : "Pernambuco Holandês" - com o companheiro Carlos Teixeira Jr.

O palestrante, comp. Carlos Teixeira Jr., fez uma verdadeira viagem pela história pernambucana, falando sobre “Pernambuco Holandês, história que tem como protagonista o Conde João Maurício de Nassau.

 

 

Aqui em Pernambuco se tem uma falácia largamente difundida que: “se os holandeses continuassem em Pernambuco até hoje, a situação seria bem melhor”. Essa assertiva não corresponde à realidade histórica. Hoje não seríamos diferentes do Suriname ou das Antilhas Holandesas...

Para Portugal implantar a cultura canavieira no nordeste do Brasil foi necessário a captação de investidor e contração de empréstimo, o que não tinha como ser feito em Portugal, por ser um reinado muito católico, as atividades financeiras eram muito mal vistas e praticamente não existiam. Logo, teve que recorrer a instituições holandesas. A Holanda já tinha expertise em empresa para investimento nesse tipo de empreendimento, a primeira sociedade anônima do mundo tinha sido criada lá para explorar o comércio com as Índias, no caso a Companhia das Índias Orientais. Mas para atender ao Reino de Portugal foi criada outra sociedade, a Companhia das Índias Ocidentais. Era comparando aos dias atuais uma sociedade de economia mista com capital da nobreza holandesa e da burguesia (comerciantes locais).

O empreendimento com a Companhia das Índias Ocidentais funcionou com êxito implantando a cultura canavieira em praticamente todo nordeste brasileiro. Para ter idéia dos valores em dias atuais 75% da produção do melaço era destinado a Holanda como pagamento e os 25% restante iam para Portugal, que depois eram enviados para Holanda para o refino do açúcar, que era o único lugar do mundo que fazia. Mesmo assim era um negócio extraordinário para Portugal. Ocorre, que, a Companhia das Índias Ocidentais tinha expertise apenas em fornecimento da frota de navios, escolta armada, empréstimo a juros e refino do açúcar, o know how para pôr os escravos para trabalharem e ocupar o inóspito clima dos trópicos coube apenas aos portugueses. Com o advento da união da Península Ibérica decorrente da ausência de herdeiros da coroa portuguesa após a morte de D. Sebatião na batalha de Alçácer-Quibir contra os muçulmanos no norte da África, (seu tio avô único herdeiro era Cardeal e somente assumiu o trono por dois anos, quando faleceu o parente mais próximo era Felipe II da Espanha que era neto de Manuel I), o Brasil passou a ser colônia da Espanha. Felipe II ainda manteve acordo com nobres portugueses respeitando seus costumes e mantendo funcionários portugueses na administração de Portugal e de seus domínio ultramarinos, o que foi negligenciado por Felipe III e completamente violado por Filipe IV. Mas Espanha e Holanda sempre foram rivais e com a ascensão de Filipe IV em 1621, Portugal Espanhol deixou de pagar a Companhia das Índias Ocidentais.A diretoria da companhia holandesa para reaver seu investimento decidiu invadir o nordeste do Brasil. Em 1624 conseguiram até conquistar Salvador, mas não aguentaram por muito tempo, sendo expulso por tropas luso-espanholas em 1628. Uma das esquadras holandesas quando retornavam fugindo do Brasil pela América Central deparou-se com uma esquadra espanhola com Galeões completamente carregados de prata Mexicana, mal conseguiam navegar. O lucro foi tão grande para Companhia, que rearmaram as tropas e efetivamente conseguiram em 1631 invadir por Pernambuco quase todo nordeste brasileiro. Ocorre, que, como dito antes, o expertise da Companhia era em fornecimento de frota de navios, escolta armada, empréstimo a juros e refino do açúcar e não o manejo direto da atividade colonial, foi um desastre, além da total falta de respeito às famílias portuguesas aqui estabelecidas, seus costumes e religião, não raro casos de estupro e juros exorbitantes cobrados aos Senhores de Engenho, os resultados financeiros da Companhia foram pífios. Preocupado com o desempenho financeiro a diretoria da Companhia da Índias Ocidentais decidiu enviar um nobre em 1637, Maurício de Nassau Von Siegen, que segundo alguns historiadores por ser extremamente vaidoso, tinha acabado de construir um Palacete estaria em dificuldades financeiras e aceitou um benevolente contrato proposto pela Companhia. Foi o grande divisor de águas da ocupação holandesa em Pernambuco, quando aqui chegou, aproximou-se das famílias portuguesas aqui estabelecidas, promoveu liberdade de culto, respeitando os católicos aqui existente, vez que parte dos holandeses eram protestantes, inclusive, permitindo cultos judaicos, o que trouxe os judeus acionistas da Companhia para Recife, em razão da perseguição da Santa Inquisição na Europa. Renegociou juros com os Senhores de Engenhos, fez obras de saneamento, pontes, observatórios astronômicos, trouxe os melhores pintores na época para retratar paisagens Frans Post, e as pessoas Albert Eckhout (poucos lugares no mundo, especialmente nas Américas foram fidedignamente retratado no período de 1637 a 1644). Indubitavelmente o melhor Prefeito que Recife já teve, no período que esteve aqui de 1637 a 1644 não houve nenhum movimento de insurreição, pelo contrário, grandes nomes que participaram da Insurreição Pernambucana como Fernandes Vieira, eram aliados de Maurício de Nassau. Mesmo com excelentes resultados financeiros para a Companhia das Índias, a diretoria ficou preocupada com as extravagancias de Maurício de Nassau, além do contrato que tinham com ele, que, quanto maior ficava sua permanência aqui, mais oneroso se tornava. Ainda temiam que ele desse um golpe e tomasse o Nordeste Holandês para ele . Decidiram, leva-lo de volta a Holanda, ele procrastinou sua ida o quanto pode, não recebendo notificações, eliminando mensageiros, etc. Mas, teve que retornar em 1644 não tinha mais como justificar sua permanência e tinha obrigações contratuais. Após sua partida, infelizmente, voltou a ser como era antes, a cobrança exorbitante dos juros dos Senhores de Engenho, a falta de respeito às famílias aqui estabelecidas e a perda do prestigio conquistado pelos locais durante o período de Maurício de Nassau, culminaram com os movimentos de insurreição, que finalmente em 1654 conseguiram expulsar os Holandeses. Portando não devemos confundir o brilhante período da administração de Maurício de Nassau, exatos sete anos (1637-1644) com a ocupação da Companhia das Índias Ocidentais Holandesa. Se fosse bom, estaria aqui até hoje. Nada contra os holandeses, pelo contrário, mas uma companhia com soldados mercenários e com caráter exclusivamente mercantilista não seria capaz de desenvolver uma sociedade melhor.

 

Após a palestra, várias perguntas foram formuladas pelos presentes e respondidas pelo palestrante.

Gostaríamos de expressar nosso sincero agradecimento ao estimado companheiro Carlos Teixeira Jr. pela brilhante palestra que nos presenteou.

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